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Geral Coluna do Núbio

Zé Craô, o guloso

Causos e Contos com Núbio Brito

26/11/2021 às 10h36 Atualizada em 26/11/2021 às 10h59
Por: Redacão Fonte: Por Núbio Brito
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Zé Craô, o guloso

Nos anos 50 um morador da região de Serra Branca, cabeceira do rio Medonho, município de Alto Parnaíba, Maranhão, um homem moreno, tipo índio, chamava a atenção de todos pela forma de se alimentar.  Zé Craô era conhecido por todos daquela região. Famoso pela gulodice, era extremamente devorador. Gostava de comer como ninguém e toda comida tinha que ser bastante gordurosa. O rustico vaqueiro, de rosto carrancudo e poucas palavras, quando não gostava do boião reclamava sem medir consequências.

Por volta de 1952, foi contratado para trabalhar na fazenda Tranqueira, de propriedade dos gemeos Palmeron e Salmeron Amaral Brito. Por concidência, no dia em que Zé Craô chegara para trabalhar, Palmeron havia mandado matar uma novilha manina, dessas que não pári. Novilha gorda, só pastava nos varjões da fazenda, só de sêbo produziu 31 quilos. A carne era para o consumo na fazenda.

Laír, esposa de Salmeron, cozinhando o chambarí numa panela de ferro batido, retirou do caldo, ainda, fervendo, parte da gordura e preparou um pirão especialmente para o guloso Zé Craô. O pirão era mais gordura do que caldo. O tutano foi adicionado ao prato, e servido ao Zé. A cada colherada que comia a gordura escorria pelos cantos da boca. Ao final elogiou a refeição, reconhecendo que a comida estava como ele gostava. Sabendo que alguma coisa poderia acontecer ao moço, Lair deixou o aguardente preparado, sabia que o vaqueiro havia ezagerado .

Após matar a fome, Zé Craô foi descansar  próximo a uma vereda próxima da sede. Não demorou muito, um ajudante da fazenda passando próximo ao Zé Craô, notou que o moço não estava muito bem e foi atrás de socorro. Lair que já esperava por aquela situação, foi até o local e deparou com o homem roncando e passando mal. O Zé estava molhado de suor e infastiado. Mais que urgente fez o guloso tomar o aguardente. Com os olhos vermelhos e suando muito, sacudiu a cabeça agradecendo a Lair, quase em processo de congestão, melhorando horas depois.

Em outra ocasião, viajando a dias com Palmeron e outros vaqueiros, tocando uma boiada, Zé Craô não parava de reclamar da comida, dizia que Odorico, o arrieiro, fazia o boião muito seco, sem gordura. Quando chegaram no baixo Maranhão, Palmeron comprou uma lata de óleo de coco babaçú e entregou a Odorico. O cozinheiro chateado com as reclamações do peão, não deixou por menos. Na manhã seguinte preparou, separadamente da comida dos outros peões, uma farofa com carne seca regada a óleo de babaçú e entregou ao moço, em seu saco de comida. O comida era para ser consumida durante aquele dia até chegar ao próximo acampamento. Por volta do meio dia a boiada foi colocada para pastar, e todos foram almoçar. Cada um pegou seu saco de comida e buscou uma sombra de àrvore para descansar e comer seu boião.  

Manezinho, resolveu se juntar ao cumpadre Zé Craô. Ao se aproximar, o amigo já havia almoçado e dormia encostado em uma árvore. Alí, percebeu uma enorme quantidade de moscas entre as pernas do Zé. Não se contendo com aquela situação pediu a ele que se levantasse. O vaqueiro sonolento, iguinorou e continuou a dormir. Manezinho, sentindo o mal cheiro, tocou no ombro do amigo com a ponta da botina lhe dizendo que estava todo cagado. Zé percebendo a situação se levantou e saiu esbravejando a procura do brejo para tomar banho.

Foi tanta gordura na farofa do Zé Craô que o que entrou pela boca saiu por baixo, sem que ele sentisse. Odorico, sentiu-se vingado e passou a tarde daquele dia, rindo sem parar, enquanto que o Zé Craô viajou sem falar com ninguém.

 

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